Este texto está para ser escrito há tanto tempo quanto o tempo em que eu mesma existo. A questão em causa é a minha personalidade e o ambiente vivido cá em casa. Parece no sense comparar personalidade com ambiente familiar, mas tem tudo a ver. Já vão entender.
Eu não sou constante, sou diferente e a minha família também nunca o foi. Lembro-me (nitidamente) de sangue espalhado pela casa, de prisões, guardas, choros, gritos e ainda me lembro onde aprendi todos os nomes feios que, normalmente os pais não querem que os filhos digam, aqui mesmo em casa. Lembro-me também, de não me poder exprimir com medo de geral alguma briga. Sempre sofremos muito aqui em casa, uma instabilidade dilacerante. Filhos que batem nos pais, os pais que dizem nomes feios, os caminhos duvidosos que eu sempre soube que não queria seguir. Não consigo descrever tudo aquilo que sempre vivi, é forte, é intenso.
Porém, com este exemplo vocês perceberão a experiência que vivi - eu escrevia em folhas de papel, agendas e livros, que a única coisa que queria era paz, não escrevia a pedir bonecas ao Pai Natal. Eu quero sempre mais do que bens materiais. Talvez por isso não lhes ligue nada, aos bens. Talvez por isso valorize tanto a paz, a imensa e sábia paz.
Os meus sonhos baseavam-se somente em ir estudar para mais tarde ter trabalho e para poder ter a minha casa. Por outro lado, sempre tive (e tenho) receio de deixar os meus avós a sofrerem. Nunca consegui ir embora de vez. É sempre uma coisa muito dúbia - eu sinto-me culpada por abandonar e deixar sozinhos aqueles que sempre cuidaram de mim e me deram tudo, mas por outro lado, eu sei perfeitamente que o desequilíbrio emocional que me foi encutido, desde sempre, contribuiu para esta minha personalidade inconstante e fechada.
Aqui em casa, quando tudo está bem, de repente, tudo pode ficar bastante mal. Discute-se, briga-se, grita-se. Gostam todos muito uns dos outros, mas não conseguem. É-lhes mais forte. Eu sofro de alterações de humor constantes - típico de quem cresce nesta envolvente - dou por mim com dúvidas existenciais, com mudanças de humor e desequilíbrios, com receios e agressividades. Eu não sou assim. Ou melhor, eu não era para ser assim. Mas fiquei... Sou o reflexo de tudo aquilo que sofri na pele até hoje.
Por isto é que eu, idolatro famílias felizes, grandes, sólidas, companheiras, fortes e amigas. É só ouvir uma história, um episódio de família feliz da boca de alguém que me vidro na conversa com o maior dos agrados. Os meus amigos nunca souberam disto, alguns deles sabiam por ouvirem falar (conversas da terra), mas de mim poucos ou nenhuns souberam. Daí eu nunca convidar ninguém para ir à minha casa, como gente normal faz. Não quero e, claramente, tenho vergonha. Sei, por experiência que, a qualquer momento, "a bomba" pode explodir.
Um dia, um seminarista, sem me conhecer de lado algum, olhou-me profundamente nos olhos, tão dentro de mim, tão profundamente em mim, como se me tivesse a observar a mente e as entranhas e disse-me: "Coragem". Simplesmente, "Coragem" e sorriu. Como se ele soubesse, tudo aquilo que já passei e tudo aquilo que [suspiro] irei passar.
Com este meu desabafo, não quero, de forma alguma, afirmar que sou a mais sofredora de todas, porém, quero afirmar, num dia como o de hoje, em que estou uma folhinha de papel branca sem linhas, que sim, eu não sou aquilo que me fizeram, eu sou aquilo que era para ser.
Eu não sou aquilo que me fizeram, eu sou aquilo que era para ser.