Eu, por norma, tento não criticar nada nem ninguém sem passar pelo veredito da experiência. Só passando pelas situjações posso tirar as minhas próprias conclusões. O que por si só, também não deixa de ser apenas e só, a minha opinião. E é moldável. Vou construíndo e modificando opiniões, a todo o momento, ou não fossemos nós seres, total e infinitamente, em construção.
E então se o assunto é religião, respondo-vos que estou constantemente a alimentar as minhas dúvidas. Leio muito sobre a religião Espírita, estudo, acompanho algumas reuniões e sim, acredito nos seus fundamentos. Mas a dúvida alimenta o meu ser, tanto mais em algo que não é racional, nem tampouco se vê com os olhos.
Não tenho estado a ultrapassar uma fase fácil, como sabem e são nestes momentos de insanidade, que todas as dúvidas e pensamentos feios invadem a minha cabeça como se ela mesma fosse uma metralhadora carregada e pronta a disparar.
Ontem queria sair do trabalho e não ir, de imediato, para casa. Caminhei furiosamente, caminhei, caminhei, sentei-me num banco de jardim e tentei não comprar alimentos de lixo. Andei mais. Andei tanto que dei por mim a dar a maior volta que poderia ter dado para chegar a casa. E deparo-me, mais uma vez, com uma sala silenciosa da Igreja Universal do Reino de Deus. Entro sem pensar e tento ler tudo o que estava nos papéis afixados, como quem procura uma ajuda e um milagre. De repente, entra um senhor brasileiro e dirige-se a mim, dizendo para me sentar e desabafar com ele. Ora, não deveria, nem o conhecia! Mas eu sentei-me. Quase que hipnotizada por aquele bondoso gesto de ajuda.
O senhor começa a falar comigo, a explicar-me o que significado desta religião (juízo final, céu e inferno) e a questionar-me o que me atormentava e o que me tinha, afinal, levado a entrar ali. Nem eu sabia, senhores!Eu só abri a boca umas duas vezes e disse apenas que estava triste e deprimida. Ele convidou-me a assistir à palestra deles pelas 8p.m e eu disse-lhe, sem pensar, que sim. Gosto de aventuras e de desafios.
Fui a casa, lanchei, equipei-me para a corrida e pensei para comigo que, se não fosse aquela palestra, não ficava bem. Eu queria mesmo perceber o que aquilo é, o que move tanta gente a dizer que se curou de tantos males e também para aceitar, simplesmente, o convite a curar-me deste estado.
E fui à palestra. Entro e deparo-me com um cenário diferente e que seria, para os mais sensíveis, algo mais assustador. Uma sala com algumas pessoas de diferentes faixas etárias, dois "pastores" e alguma confusão. Pessoas a falarem com Jesus em voz alta e ao mesmo tempo. O pastor a gritar, literalmente. A tentar dar ordens aos supostos espiritos malignos que lá estavam. Ele também falava directamente para mim (chamava pelo meu nome) e ironizava a minha religião. Porém, eu continuava lá. Estranhei o facto das pessoas levarem consigo carteiras e envelopes, mas permaneci até ao fim da sessão. Eu senti-me uma jornalista, basicamente. Sentei-me e ouvi mais coisas estranhas. Mas eu, no fundo, não estava à espera de nada de mais extraodinário, mas heis o momento em que tudo ficou claro para mim. O pastor pede dinheiro às pessoas. O pastor pede ofertas como "sacrificios". Aliás, ele pede 10% dos rendimentos dos fiéis. Sim. Incentiva e "ajuda" nos negócios e pede, também que nos próximos dias levem dízimos desse dinheiro. Pelo que entendi, as pessoas oferecem mais do que esses 10%.
Sinceramente, fiquei chocada e desiludida. A todos os estudos que participo na religião Espirita, nunca ninguém sequer falou em dinheiro. O que fazemos é tentar desvendar a religião. Estudar, a sério. Ler e investigar. Entre-ajuda. Encontrar sentido na Vida. Perceber quem é Deus que todos falam, mesmo aqueles que não acreditam nele. O quão imperfeitos somos e tentar melhorar todos os dias, nem que seja um milimetro.
Fiquei ainda mais chocada por existirem realidades tão diferentes neste mesmo mundo. Louvo a fé de quem acredita desta maneira. Louvo a fé de quem oferece dinheiro assim por serem tão bem convencidas pelos pastores. A sério que sim. Mas desta forma, eu não consigo acreditar nem ir lá mais. Fui questionar uma rapariga (16/17 anos) que lá estava com a sua mãe e que me afirmou que sim, acredita no evangelismo e não acha estranho as ofertas que solicitam, visto que a coisa mais dificil de dar é o nosso dinheiro e isso sim é o maior sacrificio esperado.
O bom disto é que eu adorei a experiência. Sim, adorei. Adoro conhecer novas realidades, apesar de ter ficado desiludida com o que aquele pastor me ofereceu inicialmente. Não quero voltar. Para quê? Deixar-me convencer e olhem que eles fazem isso, incrivelmente bem, que dar o dinheiro que tanta falta fará a muito boa gente que passa fome, para as mãos de gente que quer enriquecer assim? Não. Mas louvo, como disse, a crença de cada um. Só espero que cada uma dessas pessoas que lá estava seja ou se torne, verdadeiramente, feliz.
E pronto, saí de lá às 21:30 p.m, música alta e animada nos ouvidos e fui correr 30 minutos. :)