sábado, 9 de fevereiro de 2013

"Coragem"

Este texto está para ser escrito há tanto tempo quanto o tempo em que eu mesma existo. A questão em causa é a minha personalidade e o ambiente vivido cá em casa. Parece no sense comparar personalidade com ambiente familiar, mas tem tudo a ver. Já vão entender. 
Eu não sou constante, sou diferente e a minha família também nunca o foi. Lembro-me (nitidamente) de sangue espalhado pela casa, de prisões, guardas, choros, gritos e ainda me lembro onde aprendi todos os nomes feios que, normalmente os pais não querem que os filhos digam, aqui mesmo em casa. Lembro-me também, de não me poder exprimir com medo de geral alguma briga. Sempre sofremos muito aqui em casa, uma instabilidade dilacerante. Filhos que batem nos pais, os pais que dizem nomes feios, os caminhos duvidosos que eu sempre soube que não queria seguir.  Não consigo descrever tudo aquilo que sempre vivi, é forte, é intenso. 
 Porém, com este exemplo vocês perceberão a experiência que vivi - eu escrevia em folhas de papel, agendas e livros, que a única coisa que queria era paz, não escrevia a pedir bonecas ao Pai Natal. Eu quero sempre mais do que bens materiais. Talvez por isso não lhes ligue nada, aos bens. Talvez por isso valorize tanto a paz, a imensa e sábia paz.

 Os meus sonhos baseavam-se somente em ir estudar para mais tarde ter trabalho e para poder ter a minha casa. Por outro lado, sempre tive (e tenho) receio de deixar os meus avós a sofrerem. Nunca consegui ir embora de vez. É sempre uma coisa muito dúbia - eu sinto-me culpada por abandonar e deixar sozinhos aqueles que sempre cuidaram de mim e me deram tudo, mas por outro lado, eu sei perfeitamente que o desequilíbrio emocional que me foi encutido, desde sempre, contribuiu para esta minha personalidade inconstante e fechada.

Aqui em casa, quando tudo está bem, de repente, tudo pode ficar bastante mal. Discute-se, briga-se, grita-se. Gostam todos muito uns dos outros, mas não conseguem. É-lhes mais forte. Eu sofro de alterações de humor constantes - típico de quem cresce nesta envolvente - dou por mim com dúvidas existenciais, com mudanças de humor e desequilíbrios, com receios e agressividades. Eu não sou assim. Ou melhor, eu não era para ser assim. Mas fiquei... Sou o reflexo de tudo aquilo que sofri na pele até hoje. 

Por isto é que eu, idolatro famílias felizes, grandes, sólidas, companheiras, fortes e amigas. É só ouvir uma história, um episódio de família feliz da boca de alguém que me vidro na conversa com o maior dos agrados. Os meus amigos nunca souberam disto, alguns deles sabiam por ouvirem falar (conversas da terra), mas de mim poucos ou nenhuns souberam. Daí eu nunca convidar ninguém para ir à minha casa, como gente normal faz. Não quero e, claramente, tenho vergonha. Sei, por experiência que, a qualquer momento, "a bomba" pode explodir.

Um dia, um seminarista, sem me conhecer de lado algum, olhou-me profundamente nos olhos, tão dentro de mim, tão profundamente em mim, como se me tivesse a observar a mente e as entranhas e disse-me: "Coragem". Simplesmente, "Coragem" e sorriu. Como se ele soubesse, tudo aquilo que já passei e tudo aquilo que [suspiro] irei passar.

Com este meu desabafo, não quero, de forma alguma, afirmar que sou a mais sofredora de todas, porém, quero afirmar, num dia como o de hoje, em que estou uma folhinha de papel branca sem linhas, que sim, eu não sou aquilo que me fizeram, eu sou aquilo que era para ser.   

Eu não sou aquilo que me fizeram, eu sou aquilo que era para ser.

4 comentários:

  1. Deixaste-me sem palavras Mia. A sério.

    Porra.

    Não fazia ideia.

    Percebo bem o que queres dizer. No fundo todos somos frutos do ambiente em que crescemos, e isso define por completo aquilo que somos. Mas nunca é tarde para mudarmos.

    Percebo bem o que queres dizer com quereres sair mas ao mesmo tempo não conseguires. O pai do meu ex-namorado era alcoólico e batia na mãe dele, e quando eles se divorciaram o meu ex-namorado optou por viver com o pai. Não o quis deixar sozinho, e por causa disso passava por situações que nenhum filho deveria passar. Eu chateava-o sempre, mas dele dizia que não podia vir embora, era o trabalho dele cuidar do pai. Por isso sim, sei que as coisas não são assim tão simples.

    Só quero que saibas que tens aqui uma amiga. Não é muito, mas é uma palavra de conforto e um sofá em Lisboa se precisares (com direito a queques e tudo!).

    Coragem, acima de tudo. E muita força.

    Muitos beijinhos.

    Acho que amanhã passo por cá para dizer uma coisa mais decente, porque hoje ainda estou meia abananada (uma pessoa está a ler o capítulo de diarreias e faz uma pausa e depara-se com isto, só podia vir uma conversa desinspirada) ;)

    ResponderEliminar
  2. Lamento mesmo muito. Apesar de não ter uma família grande (somos apenas 8), tenho uma família muito unida. Tenho o lado negro da família, o lado do meu pai, mas desse lado nem sequer me lembro. Não me traz felicidade, mas também já não ma consegue roubar. Somos apenas 8, entre irmãos, mãe, tios e avó, mas somos muito unidos. Somos do género unha com carne, um núcleo duro e muito forte.

    Toda a gente deveria ter a sorte de ter uma família como deve ser, que se ama, mesmo quando discute. Lamento por ti, pela tua dor, e digo-te o mesmo: Coragem.

    ResponderEliminar
  3. Coragem é sem dúvida a melhor palavra.

    Sinto muito, a familia é o pilar da nossa infância, porém, apesar da familia "atribulada" que tens, pareces ser uma miúda impecável e até bem resolvida. Força :)

    ResponderEliminar
  4. creio que todas as famílias têm sempre assuntos (muito) mal resolvidos. na minha, foi o dinheiro que estragou tudo.
    era criança, mas lembro-me do quanto a minha avó sofreu por ter os filhos de costas voltadas, sem se ajudarem.
    só se pode ajudar quem quer ser ajudado. por vezes, gastar forças e energias a tentar ajudar tudo e todos é inútil. desde que se siga a nossa consciência...
    eu também sei o que é não contar nada, mas ao mesmo tempo saber que toda a gente da vila (gente muito coscuvilheira) conhece a nosssa história.
    eu sei o que é ter família, grande, com primos e tios e avós e agora sermos poucos.
    e todas estas adversidades tornaram-me na mulher que sou, fechada, (aparentemente) fria e frágil; mas leal a quem amo e dedicada.
    (é bom debafar...)

    ResponderEliminar